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Palavra do Presidente sobre políticas econômicas em momentos de crise

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PRODUÇÃO, DISTRIBUIÇÃO E CONSUMO: AS PERNAS DO SISTEMA ECONÔMICO

Por Paulo Roberto Bretas
Presidente do Conselho Regional de Economia da Minas Gerais.

A economia é uma ciência que parte do princípio da escassez, ou seja, não temos acesso a todos os recursos do mundo e precisamos fazer escolhas daquilo que devemos produzir e consumir. Somos limitados por nossos recursos, basta ver que temos que tomar decisões a todo tempo sobre o que comprar e onde investir. As greves funcionam porque paralisam a produção ou a circulação criando escassez momentânea, cujas consequências nefastas para os patrões são a queda na lucratividade e rentabilidade dos investimentos.

Os sistemas econômicos funcionam, também, baseados em três grandes forças interdependentes e dinâmicas: a produção, a distribuição e o consumo. Nenhuma dessas forças funciona bem sem a presença da outra, assim como não há produção sem consumo, nem consumo sem produção. Não há produção, nem consumo sem a distribuição. No Brasil, distribuímos a grande maioria dos insumos e produtos acabados e semiacabados com base no transporte rodoviário. O Brasil é movido a diesel.

A greve dos transportadores, seja de caminhoneiros autônomos ou de empresas, que vem sendo acusadas de “lock out”, mostra o quanto somos dependentes na distribuição do transporte rodoviário. O estado de conservação de nossa malha rodoviária determina parte preços finais que consumidores pagarão na compra dos produtos. Erramos feio em apostar nos caminhões, negligenciamos outras vias de transporte de carga, como ferrovias e hidrovias. Beneficiamos a indústria automobilística em detrimento de sermos mais eficientes nos meios de transporte.

Não podemos dizer que as facilidades para a compra de caminhões nos governos Lula e Dilma, que ampliaram ainda mais a quantidade de caminhoneiros e empresas de transporte atuando neste setor, seja a causa do problema. Numa economia de mercado saudável há espaço para todos trabalharem, basta a economia crescer e faltará caminhoneiros. Evidentemente que com uma economia fragilizada pelos ajustes recessivos feitos pela gestão Temer/Meirelles reduz-se o poder de mercado desses trabalhadores autônomos, pela simples ampliação da competição. As margens de lucro foram sendo comprimidas e qualquer aumento nos insumos deste negócio leva à crise. Ninguém quer trabalhar de graça.

Numa economia de mercado a vantagem competitiva vem de novas tecnologias e técnicas de gestão que levam ao aumento da produtividade, decorrente de se conseguir produzir mais com menos custos e mais eficiência. A Petrobras parece ter outra estratégia, na medida em que para de produzir internamente, a custos reduzidos, para importar combustíveis e derivados a preço de dólar, que vem elevando seu valor. E qual caminhoneiro poderá cobrar seus fretes em dólar ou a preços internacionais? Qual caminhoneiro recebe seus rendimentos em moeda forte? Às vezes penso: qual teria sido a influência de interesses internacionais pelo petróleo e pelo mercado brasileiro nesta crise? Estariam estes interesses dando as cartas dentro da Petrobras? Deixo para os juízes e procuradores do Ministério Público responderem a estas perguntas.

Então, esta mesma empresa Petrobras, cujo acionista majoritário é o Governo Federal, ou seja, deve estar a serviço prioritariamente do Povo Brasileiro, decidiu reduzir sua produção interna de derivados do petróleo, beneficiando as importações desses insumos. Trata-se de uma formação de preços fora da governabilidade federal, muito pouco competitiva e que foge totalmente do controle das cadeias produtivas de quem compra, retira da principal empresa estatal sua autonomia e anula a possibilidade de sua utilização para ajudar nas políticas econômicas em momentos de crise.

Volto a perguntar: a quem interessa tudo isto? Porque arriscar a estabilidade das cadeias produtivas internas com uma política de reajustes diários de preços de combustíveis com base em formação de preços externa? O dólar subiu e o preço do petróleo também, implodindo na prática a política adotada pela Petrobras para agradar seus acionistas minoritários e interesses escusos. Um preço alto para querer mostrar serviço sabe-se Deus para quem.

Todo empresário, seja grande ou pequeno, precisa de trabalhar com um mínimo de previsibilidade, num mercado onde preços variam a todo momento, fica difícil o cálculo econômico e impossível os investimentos e repasses de custos elevados para os preços finais. Mercados monopolistas precisam ter freios estabelecidos por regulação estatal. Governos fracos, com falsas ideologias liberais, não conseguem fazer isto acontecer.

Hoje, em plena greve de caminhoneiros, o Brasil vai refletindo sobre os graves problemas que envolvem suas cadeias produtivas e sua logística de transporte de cargas. Cada empresário vai repensar com relação à terceirização de suas frotas e dos riscos envolvidos no “just in time” de suas cadeias produtivas. Cada um vai refazer seus cálculos de risco. Enquanto isto, os negócios vão virando poeira, até mesmo o agronegócio que segurou um pouco o PIB brasileiro durante a recessão, desta vez foi atingido em cheio. Nossos erros deveriam nos levar à frente, corrigi-los e avançar deveria ser nossa regra. Mas o que vejo é o Brasil andando para trás. As crises vêm e vão e seguimos sem aprender, sem planejar, nos tornamos campeões do improviso e da ineficiência.

Preços para terem variações diárias deveriam ser formados em mercados competitivos, mercados que beneficiam aos consumidores. Fazer estes experimentos com uma empresa monopolística como a Petrobras, num país de baixa competitividade e pouca abertura de mercado, num setor mundialmente oligopolizado é no mínimo falta de conhecimento das regras da economia. A Petrobras não é uma ilha e não pode apostar tudo em nome de agradar aos acionistas internacionais, assim como o Governo Federal não controla as alterações dos preços do petróleo e nem as variações internacionais do dólar. Se os preços internacionais nos tiram competitividade, porque não ampliamos a produção interna nas refinarias? Sendo um monopólio ficou mais fácil repassar para os preços e ameaçar quebrar toda a estrutura produtiva nacional.

As soluções encontradas para paralisar a crise política e econômica, encerrando a greve dos caminhoneiros, esbarram novamente no aumento de impostos. Afinal, quem vai pagar a conta de novos subsídios? Todos nós pagaremos esta conta da ineficiência. Pagaremos por uma economia que não consegue saber se quer ser mais liberal e aberta, tampouco planeja para ser uma grande economia de mercado, ou sequer seguir com intervenções estatais muitas vezes equivocadas, que tiram poder de consumo dos trabalhadores, matam pequenos empreendedores e beneficiam grupos específicos, à custa da maioria da sociedade.

Não se pode desconsiderar a força de um seguimento envolvendo mais de 500 mil pessoas, cujo poder é ter um caminhão rodando com mercadorias pelo país, nem podemos desconsiderar que estamos sendo governados por pessoas que demonstram baixa capacidade de negociar com trabalhadores e que dão às costas ao Povo para tentar salvar a própria pele. No Brasil desaprendemos a fazer boas políticas econômicas e não conseguimos chegar à uma economia do bem-estar. Na verdade, estamos a cada dia mais longe disso.