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16/03/2015

Alta da moeda americana eleva a inflação e facilita a vida de alguns setores

Hoje em Dia | Bruno Porto

A valorização do dólar em relação ao real já impacta o orçamento das famílias, mas por outro lado alivia o cenário para as empresas exportadoras, que passam a ter mais competitividade externa. Ao mesmo tempo, setores que vinham sofrendo com a importação, como a indústria têxtil e de vestuário e calçados, poderão ter um refresco, com a entrada no Brasil de menos produtos estrangeiros.

 
O enfraquecimento do real também começa a mexer com as estratégias de empresas mineiras. Se antes, com o real valorizado, o foco era o mercado doméstico, a alta da moeda norte-americana fez com que as companhias mirassem o exterior.
 
Algumas empresas chegaram a aumentar a produção e a contratar mão de obra para atender à demanda externa. É o caso da Clamper, indústria de dispositivos elétricos localizada em Lagoa Santa, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH). A empresa aumentou em 20% os embarques para o México e Estados Unidos. A produção acompanhou as exportações e também foi ampliada em 20%. Vinte pessoas foram contratadas. 
 
De acordo com o presidente da Clamper, Ailton Ricaldoni, a reviravolta na cotação do câmbio fez com que 25% do faturamento da empresa viessem das exportações. “Antes, quando o dólar não estava tão valorizado, a participação não chegava a 10%”, afirma. 
 
A alta da moeda norte-americana é benéfica para o setor eletroeletrôni-co. Segundo Ricaldoni, que também é vice-presidente da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletroeletrônica (Abinee), a elevação do dólar impede que alguns produtos chineses entrem no país. 
 
Segundo o presidente do Conselho de Política Econômica e Industrial da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), Lincoln Fernandes, no passado cerca de 1.500 empresas mineiras exportavam. Atualmente, o número gira em torno de 700. “Esse número começa a aumentar com a escalada do dólar”, garante. 
 
Somente neste ano, a Forno de Minas já participou de feiras internacionais nos Estados Unidos, Canadá, Rússia e Japão. Nos dois primeiros países, a empresa já atua e pretende ampliar os embarques. Nos outros, a expectativa é de abrir mercado. O dólar alto coloca o exterior nos planos prioritários da companhia. “Em março tivemos recorde de faturamento por meio da exportação”, afirma a gerente de Comércio Exterior, Gabriela Cioba. Segundo ela, na comparação com março passado, a alta é de 140%. 
 
Em Nova Serrana, polo calçadista mineiro, as empresas estão se organizando para embarcar a produção. “A maior dificuldade das empresas é se preparar burocraticamente para as exportações. Interesse todo mundo tem”, afirma o presidente do Sindicato Intermunicipal das Indústrias de Calçados de Nova Serrana (Sindinova), Ronaldo Lacerda. Na empresa dele, a fábrica de tênis Lynd Calçados, os embarques hoje representam 7% da produção. No curto prazo, ele prevê aumentar para 10%.
 
Mas também há querm perca com a alta do dólar. A Ciser Automotive, indústria de fixadores para o mercado automotivo localizada em Sarzedo, na RMBH, cancelou a ampliação de 10% que faria na capacidade produtiva deste ano. 
 
Como os equipamentos utilizados na planta são importados, a compra das máquinas ficou inviável, segundo o gerente, Flávio Multari. De acordo com ele, o dólar deve rondar a casa dos R$ 2,60 para que os planos de ampliação da indústria se concretizem. “Além disso, temos alguns insumos que são importados, outro fator que nos prejudica”, afirma. 
 
Da cesta básica às viagens ao exterior, tendência é de aumento de preços
 
O dólar mais caro vai impactar diretamente o bolso do consumidor. No supermercado, no restaurante e na compra de bens duráveis, como automóveis. Quem planejava viajar para o exterior pode ter que redimensionar os planos à nova realidade de custos, e definitivamente abandonar o cartão de crédito nas despesas em outros países. 
 
No cotidiano do cidadão, os reflexos de um câmbio depreciado são amplos. Quem adquiriu o costume de frequentar a sessão gourmet dos supermercados corre o risco de voltar para as gôndolas dos meros mortais. “Vai ficar tudo mais caro nessa sessão. Mas o impacto é maior, atinge veículos, que são fabricados aqui, mas com até 40% de peças importadas, o pão, que tem o trigo importado também, e até a gasolina”, afirma o doutor em Economia e professor do Ibmec, Paulo Pacheco. A indústria da panificação também sofre com a escalada da moeda norte-americana. Segundo o presidente do Sindicato e Associação Mineira da Indústria de Panificação (Amipão), Tarcísio José Moreira, como o Brasil importa a maioria do trigo consumido no país, os custos dos produtos farináceos irão aumentar no curto prazo.
 
O proprietário da padaria Vianney, Pedro Moraes, diz que ampliou os estoques de bebidas, farinha e geleia para que o repasse do aumento aos clientes demore mais. “Vamos segurar os preços e os empregados enquanto pudermos”, afirma.
 
O superintendente da Associação Mineira de Supermercados (Amis), Adilson Rodrigues, observa que mesmo produtos com fabricação no país, mas produzidos por exportadores, ou cotados em moeda estrangeira, sofrem o impacto. O resultado disso é que “o dólar alto vai atingir a cesta básica”, diz. “No preço da carne, por exemplo, se o fornecedor passou a vender mais caro lá fora, vai reajustar o preço aqui também, ou passará a vender mais no exterior.”
 
Embora o movimento de valorização da moeda dos Estados Unidos seja global, no Brasil esse fenômeno tem dimensões maiores. O doutor em economia Paulo Pacheco observa que na cesta das moedas internacionais, a desvalorização frente ao dólar neste ano está em 5%, e no caso particular do real, a depreciação já atinge entre 18% e 19%.
 
“O cenário externo é um terço do problema. Os outros dois terços são ineficiências nossas mesmo, como, por exemplo, essa instabilidade política que reduz as perspectivas para a economia nacional e leva o investidor a buscar mercados mais seguros”, diz.
 
Queda do PIB vai inibir repasse integral ao consumidor
 
O Índice de Preços ao Consumidor – Semanal (IPC-S), com dados da primeira semana de março em comparação com a semana anterior, já detectou reflexos da trajetória ascendente do dólar na inflação. Ele variou, neste período, de 0,18% para 0,28%.
 
“Alguma coisa já se faz sentir na inflação como resultado do dólar mais caro. Em 2014 já percebemos algum impacto, com o dólar valorizando durante o ano de R$ 2,20 a 2,60, mas esse ano tem uma dimensão maior. No entanto, sobre a inflação, há um movimento de redução de demanda que pesa para o outro lado”, diz o Superintendente de Estatísticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Paulo Picchetti.
 
Desdobramentos mais diretos e mais perversos de um dólar mais caro sentirá o turista brasileiro em viagem ao exterior. “Quem já viajou e pagou com o cartão de crédito, é um abraço. A dívida vai aumentar. Quem ainda planeja um endividamento em moeda estrangeira deve, primeiro, esquecer de usar o cartão de crédito e comprar e gastar dólar em espécie. Para quem ainda tem tempo, comprar dólar um pouco a cada mês é o melhor para não correr riscos”, diz o professor Paulo Pacheco.
 
O vice-presidente do Conselho Regional de Economia de Minas Gerais (Corecon-MG), Pedro Paulo Pettersen, pondera que com a economia estagnada, o repasse dessa alta do dólar no preço será menor. “Embora uma desvalorização abrupta do real possa gerar inflação, o crescimento zero do PIB projetado para o país é um inibidor de reajuste de preços”, afirma.

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